terça-feira, 16 de junho de 2009

O Homem que Não Vai Morrer, Nunca

Se ele não chamasse, ninguém perceberia que ele estava lá. "Meu anjo", era o que ele costumava dizer. Fedido, feio, banguela, era a própria representação do que a gente não quer ser. Sempre, sempre chapadão, pedia quando estava com fome, pedia quando estava com frio. Era a pura liberdade. Fazia o que bem entendesse, sem se preocupar com olhares alheios, comentários maldosos, nada. Ninguém mandava nele.
Teve uma época que o tiraram de lá. O povo estranhou, era como se uma parte da rua estivesse faltando. Mas quando todo mundo estava se acostumando, ele voltou. Com o seu sorriso simpático e cheiro insuportável. "Meu anjo, eu tô com fome, meu anjo."
Algumas vezes, uns amigos vinham visitar. Ali, na calçada mesmo, eles faziam a sua festa. Por que não, não é mesmo? Ali era a casa dele. Mais que isto, desconfio que ali era o Reino dele. Ele era o Dono da Rua.
Hoje mesmo, uns amigos dele vieram, estavam vendendo biscoito. Um deles falou para ele comer. "Se você não comer, você vai morrer". "Eu não vou morrer, nunca", ele respondeu, com uma garrafinha de pinga na mão. O outro já ia retrucar, mas percebeu que não ia adiantar. Ele realmente nunca vai morrer.
"Ah, meu anjo, me dá um cigarro? Eu quero fumar, meu anjo"

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