terça-feira, 1 de setembro de 2009

82

Um monte de gente na porta, olhando o papel ali fixado. Uns, murmurando, talvez rezando, talvez rogando para que aquele de boné, atrapalhando a vista da lista, erre todas as questões. Outros, com o livro na mão, tentando injetar um pouco do que está escrito em sua mente, um mínimo que seja, nessa hora vale tudo. Tem o tiozão, que pode ser um professor de cursinho querendo conseguir colocar o gabarito no ar antes da concorrência, ou um frustrado na profissão querendo mudar de vida. Tem aquele, prestando por desencargo de consciência, ainda nem sabe direito o que quer, não liga de passar por mais um ano de cursinho. Tem os pais abraçando, aconselhando, quase tirando uma foto daquela iniciante, que vai tentar pela primeira vez.
Um nó no estômago. Não devia ter comido, devia ter comido, preciso de uma água, preciso de ar. Por que tanto barulho?! Estalo os dedos. Rôo unha. Não é hora de tentar acabar com os vícios. Ai, acho que esqueci o documento! Ufa, tá no bolso. Putz, não pus o relógio! Ah, tá aqui. Caneta azul, caneta preta, borracha, régua, lápis, ah não! Olha a ponta desse lápis! Respira, respira, não pira.
Um branco. Qual a fórmula de campo eletromagnético? Tenho certeza que vai cair uma questão sobre campo eletromagnético! Qual país tava em guerra? Era na América, tenho quase certeza. Não, não, era na África! Briófitas?! Que são briófitas?! Ah, devia ter trazido um livro também, devia. Não, moça, não quero uma propaganda do seu cursinho, esse ano eu passo! Ah, desculpa, é o seu trabalho, né?
Uma sala organizada. Uma carteira minúscula. Cai o estojo. Cai a água. Cai tudo. Que vergonha. Será que as pessoas percebem? Não, tá todo mundo na mesma situação. Porque ele não tá aqui, pra segurar minha mão e dizer que vai dar tudo certo?! Na hora que eu mais preciso. Ai, que egoísta, ele também deve estar passando por isso, apesar de toda a sua racionalidade. Uhn, ela começou a entregar. Já era.
82 dias.

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