terça-feira, 21 de julho de 2009

Procura-se uma Skipper.

No meu aniversário de 8 anos, eu ganhei roupas, perfumes, e mais outras coisas inúteis. O único presente que valeu a pena foi uma boneca, a Skipper. Foi um presente tão bom, que eu só lembro dele, não faço nem idéia de quem deu. Se hoje eu ganhasse roupas, perfumes e uma Skipper, provavelmente doaria a Skipper. Mas uma criança de oito anos não dá a mínima para roupas e perfume. A Skipper elevaria meu status social, na escola e no prédio, que, naquela época, era medido pela boneca que se tinha.
Nossa, eu adorava aquela boneca. Ela era a irmã mais nova da Barbie que, alguns anos antes, era feinha, feinha, mas, com a compra dos direitos da Barbie pela Mattel, foi relançada numa versão californian girl, linda. Ela usava um biquíni laranja, com óculos e pulseiras combinando. Era totalmente a sensação do momento. Minha Barbie bailarina, que até então era preferida, ficou jogada numa caixa. O Max Steel do meu irmão tinha outra namorada.
Então, chegou o dia. Todas as meninas da escola levariam sua barbie (no caso, minha Skipper). Seria a versão pré-escola do "Hot or Not", do filme Sidney White. A adorada boneca de biquíni laranja seria posta à prova. E eu sabia, simplesmente sabia, que a minha boneca não ia mais ser a empregada. Seria o auge da minha popularidade.
Bom, eu não lembro deste dia. Provavelmente eu fui a filha ou a irmã da menina mais pop. Ok, não é o máximo que se pode alcançar, mas foi um avanço e tanto. Quem sabe eu não criava coragem e dava um golpe, agora que tinha muito mais poder em minhas mãos.
Mas é o que dizem, alegria de pobre dura pouco. Quando eu cheguei em casa, vi que tinha esquecido a boneca. Mas não tinha problema. Meu colégio era muito organizado e tudo ia para o Achados e Perdidos. O pior que podia acontecer era a boneca ficar meio descabelada. Ou assim eu pensava.
Quando eu fui lá pegar minha boneca, com a minha bff, eu só disse: "Tia, ontem eu esqueci minha barbie em baixo da carteira, vim buscar hoje".
Aí a tia que cuidava do Achados e Perdidos, uma negrona, fortona, toda ona (nem idéia de como eu lembro, acho que eu era frequentadora assídua do lugar) falou pra mim:
"Uma com biquíni laranja?"
"É!"
"Com umas pulseirinhas?"
"Essa mesma!"
"Com um óculos de sol?"
"A própria!"
"Ah, uma menina da primeira série passou aqui faz um tempinho e pegou. Ela descreveu direitinho, e tal."
Aí bateu o desespero. Quem tinha roubado minha boneca?! Só podia ter sido alguém que brincou com a gente, e ficou com inveja. Ai, se eu pego. Mas eu falei que meu colégio era organizado, e era mesmo. A tia do Achados e Perdidos viu meu desespero e falou:
"Olha, se a boneca era sua mesmo, vai lá e fala com a menina. Tá aqui o nome dela, ó", e ela mostrou a assinatura da bandida, porque, sendo meu colégio muito organizado, ninguém podia pegar nada do Achados e Perdidos sem assinar uma lista.
Fui atrás dela. No começo, ela negou. Depois, assumiu, disse que trazia no dia seguinte. No dia seguinte, falou que tinha esquecido, mas colocava hoje na mala, sem falta. E fez isso por mais um bom tempo. Nos meus ingênuos recém-adquiridos oito anos, não quis envolver pais ou professores. Mas eu faço aniversário no fim de outubro, e o ano estava acabando e nada da menina trazer a boneca. No último dia de aula, fui procurá-la, ela fugia. Pensei "Ah, ano que vem ela não escapa."
Mudei de escola, nunca mais vi a cleptomaníaca mirim. Descobri como Pollis e suas roupas de plástico eram bacaninhas. Mas nunca superei de verdade a perda da boneca que foi minha por menos de uma semana.
Se você estiver lendo isto, e perceber que foi você que roubou minha boneca, e ainda a possui, mas quer devolver, favor entrar em contato.
Me faria uma pessoa muito mais completa.

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